Tempo
Chiclete, chuva e sofá marrom
Mastigo meu tempo ocioso como um chiclete duro. Conheço de cor todos os barulhos das obras, retroescavadeiras, perfurador de chão, maquitas do meu entorno. Além do barulho de mascar, meus ossos da mandíbula dançam em comunhão.
Um passarinho pia no meio de tudo isso e isso eu chamo de meu coração. Poucas coisas me alegram. Nem a gata. Mas o cheiro de suor do André e o rosto das minhas filhas me fazem cosquinhas no cérebro.
Temos água, gás e luz. Temos um sofá marrom. Temos três jogos de talheres e muitas taças de cristais. Tenho roupas antigas que não cabem mais em mim. Ontem minhas filhas ganharam da madrinha uma cabaninha estilo Mojave. Meu sobrinho montou em menos de cinco minutos algo que parecia impossível para mim — não pude não pensar em meu pai, que além de saber cerzir, montava qualquer objeto. Inclusive cenas dramáticas.
Ando sentindo falta de uma drama porque ultimamente aqui em casa eu tenho sido o drama. Mastigo o tempo de uma maneira frívola, como se, como se, minha vida fosse infinita. A minha concentração foi pras cucuias e escrever à força (que é um tipo de concentração) tem sido meu ganha-pão emocional.
Também voltei a escrever em diários mais íntimos para ver se volto a ter a letra bonita que tinha aos vinte anos. Não é novidade essa minha letargia, mesmo com a letra bonita eu mascava o tempo. Até escrevi sobre isso num conto que perdi para sempre. Lembro que no conto havia um pombo.
É isso, eu me sinto um pombo perdido num sobrado fornido de três jogos de talheres. Fico torcendo para que chova, para que eu consiga parar de fumar, para que eu escove mais meus dentes.
Começou a chover. Eu chamo isso de pequeno milagre. Começou a trovejar e as maquitas, retroescavadeiras e perfuradores de chão pararam de maquinar. Eu também chamo isso de pequeno milagre. Puxei a chuva com a honestidade das minhas palavras.
Pelo menos sou honesta, melancólica, perdida como um pombo numa marquise, mas honesta. Chove forte agora, minhas plantas agradecem, minha angústia também. A chuva sempre justifica algo maior. Minha mandíbula relaxa. Cuspo o chiclete.
Ilustração Yumi Kimura
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