Sr. Punkemudo
um conto
Sr. Punkemudo
“A escrita perverte a história, semeia o sofrimento onde havia apenas distração.”
Beatriz Bracher, Azul e Dura
Há muito procuro o tal Sr. Punkemudo. Desde o telegrama misterioso, quando marcou um encontro às cegas e nunca apareceu: Rendez-vous às 19h30. Hotel Inn, Chapéu de Feltro, Perfume de Rosas. Manteríamos a identidade indevassada pelos codinomes. Nada transbordaria pelas bordas. Colete à prova de balas. Rifle equipado com silenciador. Aliança no anelar direito. Perfeito. Tic tac. Corro a ponta da chave nos vincos do linho branco da toalha de mesa do foyeur. Tic tac. Nada de Sr. Punkemudo aparecer. Parti e bati um bilhete à máquina. TAC TAC. Os tipos imprimidos com furor: Esperei, desgraçado, toda equipada, gastei uns tantos com couvert, tive que pagar o flanelinha! Tive que me maquiar, traçar uma rota, calcular a lógica dos semáforos, fingir mal-estar e sair pelo elevador de serviço! Você não vale um grão de arroz, Sr. Não Cumpre Com Os Acordos Punkemudo!
Bom, claro que acordei com olheiras, mau hálito, diarreia e incapacidade de me comunicar. Fiz um café a contragosto e errei na dose do pó. Não pus açúcar para me castigar. Alô? Alguma correspondência nessa joça? Nada??! (Olhinhos revirados sob as pálpebras.) Desligo o receptor fingindo controle. E agora? TAC TAC. Uma pomba cinza bate no vidro da janela. Na pata carrega um pergaminho diminuto. Está escrito ao contrário: .ALE AMA ACOF, .P :SSA. Peraí? Diante do espelho embaçado vislumbro: Foca ama ela? Primeiro que só um ignorante escreveria assim. É deselegante. Segundo que o Foca me ama. E só a mim. Eu sou o grande amor do Foca. Trinta mil vezes maldito Sr. Punkemudo!
Está claro que ele quer me castigar. Pois saiba Sr. Sádico e Vilipendioso Punkemudo, que eu não estou mais disponível! Rá! E agora? Como vai proceder, Sr. Calcula Qualquer Passo Punkemudo??
Viajei. Sumi. Entrei numa trilha abandonada. Desemboquei numa praia de veraneio. Aluguei um snorkel. Passei protetor solar no corpo inteiro. Mergulhei nos labirintos rasos do oceano. Um ouriço vivo. Um peixe furta-cor. Uma alga enroscada na minha canela. Foca não veio. A agenda lotada de compromissos.
- Amor, vamos deixar pra julho?
- Julho é frio, caralho!
Então das fossas abissais me aparece um polvo gosmento e me expele das entranhas a mensagem escrita em jato de tinta azul: P. quer te ver. Usar nariz. Zôo, jaula da col⃜⃜⃜. A tinta dissolveu em nuvens delgadas. Jaula da co....? Da cobra, da corça, do coala ou do condor? O-Desgraçado-Senhor-Filho-Da-Mãe-Punkemudo-Mais-Uma-Vez-Embaralha-Meus-Nervos!!! AHHHHHH!
Respirei fundo, apertei os cintos de segurança e deitei a nuca no respaldo de acolchoado duro da poltrona do avião. Desta vez Perfume de Rosas não vacilaria. Não deixaria escapar um grão. TIC TAC. Meu corpo pulsava em lentas ondas elétricas. A voz da aeromoça me adormecia. Máscaras de oxigênio cairão...
Zoológico Municipal. Não esqueci o maldito nariz de plástico, a armação preta e os bigodes de acrílico. Chutei cobra no bicho. Víbora silenciosa e fugidia. À espreita, escondida entre as folhas secas. Sangue frio, olhinhos duros e dois caninos brilhantes em riste. Rá. Esta fera deve ser parente próxima do Chapéu de Feltro, Sr. Nunca Comparece e Simplesmente Some Punkemudo.
TIC TAC. Lembrei do Foca enquanto observava o corpo escamoso das bestas. Não avisei que minhas férias foram interrompidas. Que agora estava de volta à cidade. Que mal tive tempo de fechar os olhos e dormir como bem merecia. Que minha vida não fazia mais sentido. Que eu andava às voltas de um espião, ou sei o lá quê. Que esta criatura atormentava minha vida, me tirava o sono, o brilho dos olhos, o apetite. Que meus cabelos desgrenhados não remetiam à sereia que fui um dia. Ai, Foca. O que eu fazia ali diante da jaula de cobras? Ai, Foca. Quem era eu?
TIC TAC. O velhinho amarelo apitou no meu ouvido:
- Estamos fechando em cinco minutos, senhora.
Senhora?? É isso, Foca: Eu sou uma “senhora” sozinha e postada diante de uma jaula de víboras tropicais, usando um disfarce ridículo de Groucho Marx, esperando alguém que jamais cumpre com o prometido, que rompe com as minhas expectativas, as minhas tramas cerzidas às noites em claro, que azeda as minhas manhãs pintado-as de verde-musgo. É isso, Foca, sou uma senhora que tem as manhãs pintadas de verde musgo.
Decidi que o mataria. Sorri num ricto mole enquanto voltava para casa no metrô apinhado de gente. Seria um alívio. Seria a própria libertação. Seria o renascimento, a recuperação súbita de uma doente terminal. Seria a minha cura, uma copo de água fria, o fim.
Tracei o esquema de ação no corpo. Usei caneta para tecido, em caso de suor ou chuva. No meio do peito marquei o alvo X. Acionaria o gatilho sem culpa e coberta de razão. Tentei inúmeras vezes. Recorri a todos os apelos. Dediquei meu tempo, minha cabeça, meu coração, inteiros. E o que tive em troca? Nada. A mais completa falta. Silêncio, sumiço, vazio. Estava decidida. Mataria o Sr. Torna a Minha Vida Insuportável Punkemudo e finalmente seria feliz.
Rifle com silenciador. Aliança no anelar direito. Perfeito. Rendez-vous às 19h30. Hotel Inn, Chapéu de Feltro, Perfume de Rosas. Nada transbordaria pelas bordas. A arma em punho, a respiração controlada. Tic Tac Tac Tic. O suor descia no rosto como uma serpente. TIC. Esta seria a última vez. TAC. O tempo corria transtornado. TIC TAC. Foca dormia profundamente ao meu lado. TAC TAC. Esperei, esperei e quando não mais podia esperar, AAAAH!!!, eu não podia mais suportar. Tic. Fechei os olhos e fria como uma defunta atirei.




Nonsense puro. Senhor Pancada, sempre ausente, mudo! Que mundo louco criaste, Natércia?! rsrsrs
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