Segredos
guardo alguns comigo em alemão
Eins. Segredo é coisa que se conta ou se leva pra terra. Tenho dos dois tipos. O meu próximo romance, depois de “Vida doçura”, será um segredo que guardo comigo há dois anos. Algo que foi tão íntimo que não conseguia pronunciar em português. Só em alemão. Só que não falo alemão.
Zwei, dois em alemão. Esse segredo eu vou contar porque preciso contar para me fazer gente e ter uma compreensão e contribuir com uma compreensão de mundo mais peculiar, grandiloquente e generosa. Não sei se vou conseguir cumprir essa missão.
Drei. Estou esperando a fase de edição do meu último livro terminar para emendar no próximo, que já tem título e mil notas. Vai ser um saco organizar essas notas e desenhar a estrutura do livro, o compasso; penso em um livro de um parágrafo como os do Thomas Bernhard, nem sei bem se são assim, só porque tudo é tão abruto e sólido, mesmo que poroso, o que preciso contar.
Vier. Segredos são nossos pets psíquicos. Tenho horror a quem fala não tem segredos com fulano, primeiro porque é mentira, segundo porque é doentio e cretino se você não tiver. Penso que a gente tem segredos com nós mesmos que negociamos em um dia de domingo meio frio, mas, ato contínuo, os deixamos debaixo do travesseiros para nos cobrirmos logo com nossas falsas certezas de florzinhas primaveris.
Fünf. Eu me aconchego em meu segredos a respeito dos outros e em respeito aos dos outros. Às vezes esses são quase criminosos, mas são parte da intimidade que nada têm a ver com os outros ou com você. São legitimamente seus como um ursinho de pelúcia envelhecido guardado no fundo de um gaveta. É um objeto muito íntimo.
Sechs. Que durmamos com nossas consciências tranquilas e nossos segredos peludos servindo de consolo. Eu, você, o outro, quem for. Que coisa mais horrorosa e puritana ser despida de segredos. Esses são mais perigosos tipos de gente.
Sieben. Que vocês, sem segredos, fiquem longe de mim.
Imagem: Detalhe de A tentação de Santo Antônio, por Hieronymus Bosch.
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