Sábado
Sol, Filhas e Os Mutantes
Encostada no batente da porta Madalena me disse:
“Mãe, eu tenho quase sete anos. Depois eu vou ter oito e depois nove e depois dez. Depois acaba o ensino fundamental.” Fiz a conta de cabeça. faltam quatro anos para a infância dela acabar. Tomei um tiro na carótida. Diminuí quatro anos para trás e ela tinha só três. Foi ontem.
Ontem também ela também decretou que era a última vez que eu penteava o cabelo dela. Assenti com tristeza. Aí, minha filha disse para compensar: “Mas não é a última vez que te dou um abraço, mãe”. Melancólica, eu com cólica, passei perfume vagarosamente nela. Perfume de tempo bom.
As maritacas não param, Madalena brinca sozinha na sala, Olga escreve um longo livro na cozinha. Ontem ela estalou dois dedos dos meus pés como meu avô fazia.
A gata, sempre à espreita, num canto da escada, as pequenas bicicletas quentes de sol no quintal. Um broto de zamiocuca me alegra. Café com leite sem açúcar, uma noite bem dormida. O disco Wild God do Nick Cave (desse talvez fale num próximo texto.)
Preciso:
Ir ao oculista
Cortar o cabelo
Doar roupas
Limpar a pele
Começar meu romance novo
Terminar de reler “Pergunte ao pó”
Tudo é tão banal e bom. A melancolia de uma mãe que assiste à autonomia de uma filha como um afastamento bonito mas dolorido me preenche. A música de oito minutos do Mutantes que repete insistentemente que tudo foi feito pelo Sol me intriga. E pela Lua? Eu sou tão Lua.
Sempre vou ser melancólica. “Passado pressente futuro” como dizia o meu pai. Não existe presente. As maritacas deram um tempo. Madalena já saiu da sala e dá pequenas voltas na bicicleta morna de verão no quintal, enquanto Cícera se esgueira numa nesga de luz, e Olga segue escrevendo seu livro em letra bastão, concentradíssima. E eu aqui. E eu aqui. E eu aqui.


