Ressaca
recuo depois de um romance escrito
Estou nos ajustes finais do meu segundo romance: “Vida doçura”. Já sei o tema do próximo que vou escrever. Tenho mil notas. Tomava as notas para mim ainda escrevendo “Vida doçura”. Tenho uma espécie de ansiedade literária. Misturo livro que estou lendo, misturo livros que estou escrevendo.
Mas agora estou seca. Sem a menor coragem de pegar centenas de notas e começar o próximo. Fico pensando na proficuidade da minha carreira. Serei uma escritora de quantos livros quando morrer? Tem um lado meu que quer que sejam muitos, tem outro, maior, que diz “seja o que Deus quiser”.
Será que importa muito a quantidade? Às vezes um livro é melhor do que mil, um livro curtinho, tipo “A metamorfose” esmaga com um chinelo uma montanha de livros já escritos ou que ainda serão escritos. Já a máquina extraterrestre de escrever livros como Cesar Aira me assombra profundamente — nosso Cesar Aira é o Joca Reiners Terron.
Acordo, tomo meu café, agora escuto Lovesong do Cure enquanto escrevo este texto que não sei onde vai dar. Ontem paguei meu analista com o dinheiro do Substack. Tomei um susto.
Sou da época dos blogs e a gente escrevia só por escrever, eu também escrevo aqui porque tem sido uma delícia reviver essa nostalgia. Receber um dinheirinho por isso parece um milagre. (Obrigada, inscritos pagos. Uma papoula para cada um de vocês!) Só ainda não entendi o teor do meu “Natércia Soluça Lúcida”, nome do meu antigo blog também. Não quero cometer ficção aqui, como fazia no meu velho blog, mas ja acabei cometendo.
Queria tanto ser uma ensaísta foda como a Valeria Luiselli, mas não tenho estofo. Muito menos para ser resenhista como a Ludimila Moreira. Então fica esse mingau de diário literário que é o que vem acontecendo aqui desde que comecei a escrever no Substack.
Mas fugi totalmente do tema. Estou seca. A 70 km, o GPS anuncia, dobre à esquerda. Lá vou encontrar meu próximo livro. Preciso esvaziar minha cabeça antes. Lançar “Vida doçura”, acompanhar as críticas, o retorno dos leitores com quem aprendo tanto sobre o que eu escrevo. Todo esse processo demora muito. Talvez venha um livro de contos antes? Não. Vou para o romance que já vem implorando para sair de mim há mais de duas décadas.
Talvez pegue um freela de roteiro nesse meio tempo. O que vai me tomar 95% da minha energia criativa. Sem falar que eu tenho duas filhas para criar. Não sei quando meu próximo romance vai sair depois de “Vida doçura”. Talvez eu já tenha feito cinquenta anos. Talvez eu seja uma escritora de quatro livros. Vai saber. Não vou me preocupar. No meio do caminho, posso ser atropelada num rompante como a coitada da Macabéa. (A hora da estrela, outro livro que esmaga uma pilha infinita de livros já escritos no mundo.)
Arte: Federico García Lorca
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