Piscina
Tubarões, focas e cangurus
Estou submersa. Minhas mãos estão apoiadas na borda. Tudo é azul, eu sei. Mesmo de olhos fechados. Os azulejos são lisos, quase oleosos, eu sinto. Expiro com o nariz debaixo d’água. O barulho das bolhas profusas me acalma.
Não quero ver o mundo. Não. Quando volto à superfície para puxar ar, volto de olhos fechados. Não quero ver o mundo. Não quero ver as toalhas coloridas penduradas na mureta de ferro branca. Não quero. Só os barulhos dos outros gritando, conversando, tossindo e gargalhando já me irritam o suficiente.
Puxo mais ar. Mergulho de olhos fechados, para evitar que o cloro fira meus olhos. Mais uma vez o barulho das bolhas que eu e a água tratada pelo zelador produzem me acalmam.
Li em uma notícia sobre um tubarão mais antigo que Cristo. Na reportagem havia uma foto dele. Ele parecia um monólito coberto de algas. Imenso. Vagando há séculos, nadando com um esforço que parecia quase nulo.
Fico pensando na complexidade desse ser vivo. Não sei bem se ele tem a idade de Cristo, confesso, mas era algo semelhante assim, mais de mil anos, ou quatrocentos anos? Não sei, estou confusa e emerjo já incomodada com os barulhos do mundo.
O barulho das bolhas é o único barulho que consigo suportar agora. Mas está anoitecendo, as pontas dos meus dedos estão enrugadas, meu corpo está cansado porque infelizmente não sou peixe.
Esse tubarão me fisgou por dois motivos: gostaria muito de estar submersa para sempre vagando por aí, sem correr riscos, sendo o topo da cadeia alimentar no meu habitat. Segundo motivo: não gostaria de ter a idade de Cristo, seria insuportável.
Que tipo de pensamento esse tubarão específico engendra para viver tantos e tantos anos e suportar estar vivo? Se ele não tem pensamento nenhum, eu queria muito ser um tubarão. Ou um mosquito que vive, ouvi falar, quarenta e cinco dias. (Quando não é esmagado ou eletrocutado por uma raquete elétrica).
A noite cai, uma névoa umedece o ar quase virando água, e prometo a mim mesma que vou seguir minha série de mergulhos com as mãos agarradas à borda da piscina só mais dez vezes; eu aguento, eu quero. Eu preciso estar longe.
Depois, é isso. Vou ter que subir pela escada da piscina, pegar uma toalha, porque não sou peixe, secar meu corpo, porque não sou peixe, tomar banho, porque não sou peixe, pentear o cabelo, porque não sou peixe, trocar de roupa, porque não sou peixe, beber água sem quantidades tóxicas de cloro, peixe bebe água?, comer um pão, peixes comem pão. Meu estômago ronca. Estou viva, logo preciso viver.
O Roberto Carlos, que perdeu uma perna numa linha de trem, canta: “É preciso saber viver”. É preciso, Roberto. É até bonito e otimista você cantar isso. Mas ninguém, afora os indígenas, esquimós e aborígenes, que são sábios e têm lá suas angústias humanas, Roberto, mas, sonho eu, também são peixes e cangurus e focas, vamos ser sinceros, Roberto, é impreciso saber viver, Roberto, na verdade, Roberto, ninguém sabe viver.
Video Fish (1975). Nam Jun Paik
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