Não
um não também é um sim
Ontem à noite recebemos aqui em casa um grande não. Primeiro veio o baque. Depois o alívio. Um não é melhor que um talvez, definitivamente.
No talvez mergulhamos em águas profundas com um cilindro de oxigênio em um nível baixo. Tentamos nos distrair com os corais e os peixes multicores e a dança imprevisível das algas, mas a sensação é de quase afogamento.
Com o não, você está emerso, balançando as perninhas n’água e respirando livremente a não possibilidade de uma expectativa. Parece papo de coach, mas estou sentindo isso na pele.
Agora: EU SEI. Não, não vai ser possível e você enfim sai do estado de suspensão e finca seus pés na areia batida. Lá na frente tem uma árvore de praia, crianças fazendo castelo com baldinhos azuis, um burburinho de gaivotas e pessoas e vendedores de água de coco e picolés.
Você está em sua atmosfera natural, que ao contrário do que se pensa é o não. O sim vem às vezes para fazer a roda girar. Mas sobretudo o não gira a roda com mais empenho. Não, não, não. Sim.
E agora temos o não recém-nascido em nossas mãos. Com seus pezinhos minúsculos, e sua respiração ritmada, acordado e calmo. O dia nasce e outros nãos nascerão, e se metamorfosearão em sins e como novos sins que lá na frente se transfigurarão em nãos.
“Barco perdido, bem carregado.” Estamos bem, alimentando nosso não com resignação, oxigênio e coragem.
Pintura: Quero-quero, de Luli Penna.
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