Música
um ensaio na garagem
Li recentemente um ensaio publicado na Granta da Sheila Heti que a Miranda July recomendou e adorei. Ele ficou ressoando em mim por dias. No apanhado geral (spoiler), ela conta o périplo de tomar drogas pesadas como Ketamina, LSD, e indóceis cogumelos com supervisão médica.
E, depois de mergulhar por semanas numa piscina de lisergia controlada, ela concluiu, lá no frio do Canadá, que deveria escutar mais música.
O texto me fez lembrar que eu não ando escutando tanta música como sempre escutei, desde criancinha. Tudo porque meu Spotify está dando um tilte de inicialização que me enche o saco. Faz um ano isso. Que absurdo.
Sinto que estou mais fraca, menos centrada, mais irritável. A música sempre me ninou. Meu pai era compositor e eu mesma, quando criança, inventava minhas cançõezinhas desafinadas. Minha filha Madalena repete o hábito cantarolando de repente como se estivesse numa clareira florida no meio de uma floresta da Disney. Fico tão tocada.
Minha maior influência literária para escrever não vem de nenhum escritor, mas de compositores, como meu próprio pai e o Caetano Veloso, por exemplo. No meu próximo livro, e no primeiro, os epílogos são letras de músicas do Caetano.
No meu ideal de vida eu seria uma roqueira. Mas como não tenho o dom da música (que dom precioso!), resolvi virar uma escritora-roqueira. Quer coisa mais linda do que alguém tocando piano, violão, violoncelo, cítara, bateria, clarinete, copos de cristal ou mesmo usando a própria voz?
Foi o Nietzsche que disse que a vida seria insuportável sem música? Preguiça de procurar no Google. Para mim, ela é a mãe de todas as expressões artísticas. A música é a água e o Teatro é o pão. Meu pai compositor. Minha mãe atriz.
Já me arrisquei a compor letra e o resultado é algo que faz brilhar meu plexo solar. A cantora Nina Becker me deu o título (ou o mote) e pediu:
— Faz uma letra com o título Zebra Dálmata?
Fiz não sei como. Mas o resultado tá aí. Uma música aparentemente nonsense, mas que fala de uma relação que chegou ao fim por incompatibilidade de gênios.
Magra
Ela passeia na palma vagueia entre as almas os fones de ouvido pendurados no pescoço
Calma
Ela sorve uma farpa
Caminha por praças macabras as raízes escuras
Pregadas no osso
Zebra Dálmata
Dia e noite
Não e sim
Se pode ser tão ruim viver no açoite
Como fomos parar aqui?
Eu e você somo duas tevês sonhando nuances cantando um balance, fingindo um lance
Ilusões em PB
Nada de bom é assim
Vê
Se me enxerga, tenho mais, tenho frestas, quero paz, quero o fim
Zebra Dálmata
Dia e noite
Não e sim
Se pode ser tão ruim viver no açoite
Como fomos parar aqui?
Dá pra ver que tem muito Caetano? Ou, melhor, tentativa de Caetano? Ou mesmo Antonio Cicero ou Tom Zé ou David Byrne? Tá aí uma coisa que fiz na vida de que tenho muito orgulho. Queria fazer mais. Alô, músicos, me chamem!
É isso, prometo aqui para mim mesma que vou escutar mais música. Consertar a droga do Spotify. Balançar o esqueleto, azeitar os neurônios, ouvir sussurros melódicos de olhos fechados. Aconselho a fazerem o mesmo.
Até, desejo um verso sonoro bem bonito a vocês.




Adorei! Escrevi uma música quando era adolescente, fiz até a melodia! Algo meio CPM22 de que não me orgulho muito hahahah… mas foi uma experiência e tanto!
Muito bom, Natércia, como todas as coisas suas que li.