Livre
um exercício
Quero escrever sem pensar no que vem depois. É possível? O pensamento subsequente vem alinhado ao anterior mesmo que sejam imagens como galinha, chave de ferro e caixa torácica. Quero escrever como estou embolada em vários edredons que não estão em ordem, mas misturados. Nesse arranjo, sobra um dedo frio no canto da cama.
Quero escrever o mais próximo de como funciona a voz sublinear da minha cabeça como um rio calmo que escorre acima de um rio revolto e escuro. Mas é impossível, minhas filhas interrompem até a antilógica que quero imprimir neste texto. Elas brincam de caça e a caça sou eu. "Fecha a porta!", comando.
Pintura inspirada na obra de Max Ernst — Não é I.A.
Depois eu vou sentir remorso, mas o tempo já passou. Sobre o tempo tem uma coisa que aprendi de uma indígena mexicana. Para eles o tempo não é horizontal. O passado se vê à frente porque já o conhecemos, o futuro está lá atrás porque não o sabemos. E o presente vem na vertical, fatiando a vida, os momentos.
Sinto minha vida fatiada de grandes nadas. De interrupções destes nadas. Queria escrever sobre cada nada com palavras desconectadas como: pincel, túmulo, cueca. Quero, mas não consigo.
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Avalia, badala cada nada… calada, bailava!
#palindromo
e quem disse que a gente consegue ser livre?