Filhas
nascer de novo
Escrevo para não esquecer. Não posso esquecer. Não posso esquecer do calorzinho. Escrevo com mais urgência nos dedos do que na cabeça. Como descrever o calorzinho que senti quando a enfermeira depositou a Madalena ao meu lado, na maca, minutos depois de ela ter nascido?
Elas já estavam comigo há 38 semanas. Mas eu não as sentia, tirando os chutes, as cabeçadas, as cotoveladas que vinham de dentro pra fora. Mas o calorzinho veio de fora pra dentro. Aquilo me comoveu pra burro. Chorei grosso, era um milagre. O único milagre da minha vida. Um abraço do mistério.
Olga precisou ficar numa câmara de calor porque nasceu um pouco fraquinha. Puseram até um gorro improvisado de gaze em sua pequena cabeça careca. Uma coisita de olhos claros.
Madalena nasceu com cabelo negro, liso. As bochechas coradas. A íris enorme e castanha. Logo depois já estava mamando em meu bico intumescido, mamando forte como uma pequena gorila. Pouco depois, Olga mamava também.
A personalidade delas foi se desenhando a partir daí. A mamada da Madalena era mais fina, Olga abarcava mais meu bico. Eu me sentia um bicho estranho, feliz e recém-nascido. Não é mentira quando dizem que com o nascimento dos filhos se nasce uma mãe.
Onde eu mamava? Na minha infância. Hoje Olga e Madalena completam sete anos. Ao longo desses sete anos, fui lembrando de uma versão minha que já imaginava carcomida pela terra.
O eu-criança ressurgiu em inúmeros momentos ao longo desses sete anos. Posso dizer que também sou criança há sete anos. A insistência na minúcia da Olga, o atrevimento voraz da Madalena, seu jeito de se jogar, escorar seu corpo mole nos outros. Tudo eu. Tudo elas. Madalena cantando músicas inventadas no chuveiro, a letrinha cursiva caprichada da Olga. A curiosidade pelo mórbido das duas.
Elas adoram, por exemplo, as histórias que conto como a da mãe de um amigo que foi beber água no meio da madrugada na cozinha escura e engoliu uma barata. As cócegas em sua garganta assustada. Ou a outra história da mosca que depositou ovos na orelha do pai de uma amiga e semanas depois saiu uma mosca bebê de uma narina dele. Sou eu, enquanto conto, fascinada e aterrorizada por estas imagens. Elas também.
Acho que esse é o maior presente de se ter filhos: ser mãe e voltar a ser criança também.
Foto da Olga, com sua câmera de fotografar nova, de um retrato meu criança-antiga.
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Que lindeza de relato. Falei ontem mesmo na terapia: cada idade da minha filha é um reviver de mim mesma nessa idade.
Parabéns para elas e para você <3 viva!