Família
meu ninho de antisséptico anestésico
Faz tempo que a palavra família foi co-optada pela extrema direita e eu lembro bem quando isso aconteceu: fiquei absorta, sem entender mesmo, perguntava ao meu marido, "mas como, se todos somos família?!”. Aí entendi que para ser considerada uma família de verdade tinha que ser nos moldes horripilantes deles.
Uma família pode ser configurada como: uma mulher mais uma samambaia gorda e saudável. Um homem e um cachorro quieto. Dois homens. Um homem gay e seus objetos e projetos. Duas mulheres. Um grupo de travestis que dividem um sobrado. (Sim, eu li a Camila Sosa Villada). Uma mãe e uma filha. Uma tia e uma filha. Um trisal. Família é refúgio e união. Amigos que se encontram assiduamente, por exemplo. Uma avó e seu tricô. Um idoso e seu futebol. Uma avó e seu futebol. Um idoso e seu tricô. Aí, as possibilidades e configurações são infinitas.
Várias famílias não são famílias. Pois ali não há um sentimento de união, como fios de chiclete saborosos que unem um aos outros. Mas cabos de fios grossos que dão choque.
A minha família tem uma configuração mais clássica e, digamos, aparentemente careta. Mas amorosa. Dois héteros brancos, duas meninas e uma gata fumaça de olhos âmbar. Participamos desse conjunto musical há sete anos. Tem sido uma aventura estafante, da qual não me arrependo de ter escolhido para minha vida. Antes de nossas filhas virem, a casa era mais silenciosa. Nossa família era formada por nós três: eu, André e um gato muito solene e digno chamado Wilson — não sei se incluo minhas combalidas samambaias.
Mas na minha família encontro um abrigo para minhas dores, sombras e vazios. Encontro algodão para preencher os buracos das dores da minha família inicial e totalmente disfuncional, mas também bonita. Não que minha família não tenha buracos. Rimos e gritamos todos os dias. Recebo correspondências engraçadas das minhas filhas. Entregas de correio na minha cama. Ficamos de mal. Nos desesperamos com grana, falta de paciência e ira.
Também nos abraçamos, temos nossos rituais malucos, amamos miojo de tomate, assistimos à série De volta para o futuro, o maravilhoso Convenção das Bruxas e vamos ver em breve Os fantasmas se divertem. Lemos livros juntos. Ouvimos música punk, Mutantes e Milton Nascimento no carro, viajamos e brigamos na viagem.
Ontem, estava com um corte pequeno na planta do pé que doía muito. Comentei com o André o absurdo de um cortezinho provocar tanta dor. Juro que pensei nos pés de Jesus Cristo unidos sadicamente na cruz por um prego enferrujado.
André me veio com um antisséptico e anestésico para o meu ferimento. Pegou meu pé e borrifou o remédio. A dor cessou na hora. Dez minutos depois ele veio perguntar como estava o machucado. Respondi que estava tudo bem. Eu me senti tão acolhida. Ele nem sabe, porque não disse.
Enquanto escrevo, Cícera, nossa gata preta-fumaça, me observa do parapeito da janela numa posição tão elegante. Também me sinto acolhida. Nosso micro-cosmo é feito de caos, feridas e amor.
Precisamos uns dos outros. E outros podem ser animais, vegetais ou minerais. Minha dica é: proteja o seu ninho, cuide do seu mundinho, borrife perfuminho. É tão bonito e bom.
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Ai Natercia, te amo.
Parece que escreve pra mim rsrs...
Me acho né?
a minha é: eu, meu filho e minha gata. protejo demais esse ninho com lágrimas, gritos, gargalhadas, cara feia e afeto. amo seus textos e parecem que eles são pra mim [a louca kkk]