Espuma de maçã
Como passei dez meses sem conseguir ler, ver um filme ou uma série.
Sempre deitada, às vezes ia ao vaso fazer xixi de uma água que pouco bebia. Diagnóstico errado, me entupindo de remédios errados a ponto de um dia, o hábito tatuado, engolir um dente de leite da minha filha.
Um dia depois do outro, depois do outro, depois do outro, e eu esperneando a injustiça que é viver. Um amigo se enforca, outra também pula do precipício. Dias sem banho, mas faz frio, não cheiro mal. Cheiro a amaciante curtido da cama. Cheiro a clorofórmio, porque metade do meu corpo está morta; a bruxa japonesa disse, apontando para o meu pescoço, com sotaque engraçado e pausado: “daqui para baixo morto, cabeça muito viva”.
É que existe a música. E só a música me embalou neste ano ruim. E um romance escrito furiosamente em três meses e o trânsito enlouquecedor e os motoboys costurando meu tecido neural. Filha vem, filha beija. Filha vem, filha pede. Eu cavouco o meu calcanhar com o dedão do outro pé, as unhas maiores do que costumavam ser.
O que aconteceu comigo? Estou a dois centímetros do meu centro. Não consigo ler, me concentrar, até o bilhete da minha filha que diz “eu te amo mamãi” me exige um esforço de formiga.
Mal como e engordo por causa das medicações, tremo. Durmo ouvindo casos médicos. O fone branco de ouvido que tem sido minha âncora na Terra. Eu, morta do pescoço para baixo, minha cabeça ferve, mas não chega a cem graus.
O livro me destruiu, mergulhei nele com coragem demais, dei um salto desengonçado no trampolim e caí sem escafandro em um pardieiro de agonia e dor — que sempre recusei visitar, e que pairou sobre minha barriga umedecendo de chorume o meu umbigo. A vida inteira. Morri, cabeça viva, Medusa patética trocando de roupa velha de banda velha, o rasgo na altura da manga.
Eu tentei e perdi meu centro. O que ganhei em troca? Um livro que nem é tão bom. Mudei de psiquiatra, melhorei, parei de chorar o tempo todo, de urrar, de bater na minha cara e de querer sumir.
Um dia senti graça em um suco de maçã. Foi aí que percebi minha melhora. A concentração ainda não veio. Mas os banhos voltaram e a vontade de movimentar as pernas também. E os braços, os abraços e o hálito das minhas filhas me elevando até o teto sob o lençol. Mãe fantasmal.
Aí, vi, sem saber que estava vendo, “De volta para o futuro”, sem saber também vi “De volta para o futuro 2”. Li “Acrobata” da Alice Sant’Anna, minha editora genial, e “Fases do afogamento”, da minha amiga genial, que estreia na poesia, Marcela Duarte. Parece que voltei numa banheira descascada, emergindo da espuma de maçã, que roubei da música do filho do Caetano, não sei se do Zeca ou do Tom.
Obrigada a todos os músicos do mundo, em especial, ao Kurdt Cobain que, com sua poética e raiva e paixão e torpor e horror à vida, me levou a certo estado de graça, como um cilindro de oxigênio boiando na banheira. (Eu, mergulhada na água, observando meu dedão de pé, agora com a unha cortada reta.)
Imagem Louise Bourgeois




Bem vinda de volta à superfície, Natércia. Seu livro me ajudou a juntar os caquinhos do velho mundo que me assolou esse ano, espero que você encontre alguns assim pra você também. 💖
nem sempre é fácil manter a cabeça viva.