Esmoler
o dia em que deitei na rua
Tarde da noite. Chovia lama. Eu vestia uma pulôver vermelho e sandálias que deixavam meus dedos à mostra. Estava determinada a ser o que sempre fui, uma esmoler, uma moradora de rua, uma mendiga.
Primeiro sentei debaixo de uma árvore para me proteger da lama que caía grossa. Não me protegeu muito, já estava empapada de lama, ocre e gelatinosa.
Baixei a cabeça e vi que formigas grandes resistiam à tempestade incomum e continuavam em suas funções mecânicas, caminhando e trabalhando apesar do solo movediço de lama. Eu tinha parado de caminhar. Não só ali. Mas para tudo na vida. Comer, cuidar, varrer, lavar, amar, gritar, conversar, cantar — o que me sobrava era dormir.
Fiquei um bom tempo ali, mexendo o dedo dos pés e inspecionando as formigas inabaláveis. Quem dera fosse uma delas. Não saberia nada sobre o que é ser uma pessoa e lidar com outras pessoas, que é a parte mais difícil de ser humana.
Avistei uma marquise de um restaurante self-service, que tinha uma pequena rampa elevada, que me serviria de travesseiro. Estava resolvido. Dormiria ali, e no outro dia o dono provavelmente me afugentaria. Foi difícil, porque o cheiro de urina de cachorro estava muito ácido, mas usei meu cabelo como fronha.
Deitava na calçada, vi de um ângulo inédito um prédio de luxo do meu bairro. Os prédios ficam menores e menos intimidantes. A calçada era dura, e isso não me incomodava, pelo contrário, me causava mais humanidade. É assim que muitas pessoas dormem a vida inteira. É assim.
Claro que no outro dia eu ia procurar caixas papelão para me servir de leito, e quem sabe uma lona para me proteger do frio da noite. Mas, deitada, sentindo o cheiro agudo de urina, pensei na minha vida inteira.
Em posição fetal, repassava acontecimentos marcantes e duros e doces. Apesar da dureza do chão e da fedentina, era um lugar perfeito para pensar sobre mim e sobre o que eu fiz da minha vida.
Uma formiga me avistou. Ela parecia levantar sua pequena pata dianteira num aceno, que parecia dizer, “vem comigo”. No começo achei que estava dissociando, mas a formiga, também banhada de lama, erguia seu pequeno corpo, em um esforço hercúleo, quase bípede, e acenava, “vem, vem!”. Obedeci. Ela voltou a sua posição de formiga e me guiou até a porta da minha casa.
Entrei.
Imagem: “A night god” de Michael McGrath
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