Envelhecer
Folha amarela
Recentemente fiz 45 anos. Não sei, para mim alguns marcos da vida são matemáticos. Por exemplo, quando fiz 6 e aprendi a escrever com a Cartilha da Talita e a professora Gerusa. Ou quando perdi minha virgindade aos 14 de maneira natural e deslumbrante. Ou quando aprendi a dirigir e entrei na faculdade aos 18.
Lembro quando fiz 25 e achei que minha idade já pesava — rio um pouco dessa sensação, mas acho que ela era e é legítima porque vivi muitas coisas até aí. Morava sozinha no Rio de Janeiro, depois de ter morado em muitas cidades. A minha praia era descobrir o mundo e as pessoas. Hoje não sei se quero descobrir o mundo ou as pessoas.
Uma amiga muito próxima lembrou outro dia que eu sentava com estranhos e dizia: “Me conte tudo sobre sua vida”. Claro que estava bêbada na maioria das vezes nesse momento, mas eu tinha um olhar de caçadora, querendo caçar alguma fruta brilhante, alguma pedra preciosa, um pássaro raro. (Acredito ainda que a cada segundo sempre tem um milagre acontecendo, só não sei se estou mais interessada nesses milagres.)
Neste momento estou banhada, de pijama azul-escuro, passando calor e pensando se é hora certa de ouvir o novo disco do The Cure. Eu preciso estar bem para ouvi-lo, por que ouvi falar que é puro esplendor estético, e não sei se é bem o caso para agora.
Se me perguntarem na rua, estou bem. Não tenho muitas rugas — nenhum problema em tê-las —, meu corpo é levemente magro, vou sorrir para você com meus dentes cor de púrpura. (Achei meu primeiro fio de cabelo branco enquanto me penteava diante do espelho.) Mas o meu envelhecimento tem me colocado de cabeça para baixo como uma ampulheta do tempo virada outra vez. Sendo bem otimista, já vivi metade da minha vida.
O que vou fazer com essa outra metade? Quem vou deixar entrar, de quem quero saber? Eu era aberta a tudo, e levei muita porrada, mas também recebi buquês faustosos nessa posição. Hoje estou bem mais seletiva, comida, cheiro, pessoa, filme, roupa, música, notícia, polêmica, bem, com o mundo em geral. Cada vez mais interessada na simplicidade, no pouco, no que considero ser bom, no frugal, como uma rajada de vento na Praia de Iracema, em Fortaleza, ou um belo suco natural de maracujá numa padaria paulistana. (Meio cafona, eu sei. Mas uma qualidade minha é que adoro clichês. Isso pode até virar tema para um próximo texto, quem sabe?)
Enquanto amarelo como uma folha já curtida pelo tempo, pressinto um movimento meu levemente inclinado à amargura? Ou a um certo tipo de purificação? Ainda não tenho resposta, e também nem sei se quero sabê-la. O tempo não me dirá.
Imagem: s/ título — Sandra Antunes Ramos.
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