Endrometriose
uma sopa de sangue e patriarcado
Sangro profusamente agora. Semana passada a minha endometriose foi finalmente diagnosticada. Tenho 46 anos. Isso explica a minha dificuldade para engravidar, as dores incapacitantes que sinto nos primeiros dias do meu ciclo, desde que comecei a menstruar, há 33 anos.
Quantas vezes tive que trabalhar e fazer uma esforço assombroso para me manter de pé e funcional enquanto delirava de dor? Quantos desmaios e anemias graves sofri? Se você me perguntar o que é endometriose, eu não vou saber explicar direito, quase ninguém que menstrua vai. Não vou gastar água consultando o Chat GTP.
Essa completa falta de conhecimento tem nome: patriarcado. Esse polvo pegajoso que invade violentamente com seus tentáculos a vida das mulheres que menstruam desde que são mulheres. Há milhares de anos. A Ciência começa timidamente agora a estudar um pouco mais a fundo essa condição devastadora, exclusiva do sexo feminino. Não precisamos de explicação para esse descaso. Estamos acostumadas a sermos deixadas pra lá.
Frida Kahlo sofreu e retratou vários abortos sequenciais, Lena Dunhan tirou o útero por volta dos trinta anos porque não suportava mais viver com essa chacina íntima e mensal. Não é um problema íntimo. É um problema importante de saúde pública.
O que anima essa minha carcaça estraçalhada agora enquanto escrevo é que as coisas parecem começar a mudar. Algumas empresas oferecem home office para os primeiros dias de menstruação das funcionárias. A Ciência avança a passos de tartaruga para decifrar essa condição tão incapacitante que passamos TODOS os meses.
Sem falar da disforia pré-menstrual que muitas de nós sofremos mensalmente e que dura por volta de dez dias antes da menstruação. Ou seja, contabilizando aqui, ficamos metade de um mês completamente afetadas pela mudança sideral de hormônios e doenças ligadas ao ciclo menstrual. Até aqui, lidamos com um indiferente "se virem".
A disforia menstrual é um capítulo à parte que não vou tentar descrever aqui porque sinto canivetes enquanto escrevo em todo o meu quadril, minhas costas, minhas pernas, mesmo medicada. Mas é um quadro gravíssimo a ponto de destruir carreiras, famílias e a própria dignidade.
Estou puta da vida porque outro dia vi um robô do tamanho de uma criança andando e cumprimentando os passantes numa feira. Aquilo me deu calafrios, parecia um enorme louva-deus demoníaco. Estivemos na Lua pela segundo vez, Marte já não é mais um absoluto mistério.
Mas o ciclo menstrual de uma mulher e todas as questões relacionadas à nossa natureza reprodutiva continuam um mistério. Mistério, não. Mistério é uma palavra bonita. Um despojo, algo sem importância e sem a mais diminuta das preocupações.
"The family", Louise Bourgeois.




Não quero bancar a superior. Vim contribuir. Ok? Tenho 46 anos, com 37, retirei 5cm de intestino e 19 focus da endometriose, na bexiga, nas trompas, ou seja, estava tudo dominado por ela. Hoje eu estou bem, (não tive filhos, por opção) sem dores e muito atenta em ouvir e compartilhar a minha história. Como fiz o tratamento com uma especialista, que conduziu muito bem, especificando como seriam os exames e a cirurgia, ela incluiu um gastro no tratamento.
Há época, fiquei muuuuito abalada, foi um impacto emocional gigantesco, mas me movimentei, fui amparada pela terapia e pela espiritualidade, superei essa fase infernal da minha vida.
Desejo que vocês evoluam no tratamento e que logo fiquem bem.
Um chá quentinho passando por aí ❤️
Sofro de TDPM (transtorno disfórico pré-menstrual) e não há uma pessoa com quem eu converse sobre o tema que já tenha ouvido falar sobre. É de uma ignorância que aterroriza e emputece. Sinto muito que seu diagnóstico tenha vindo tão tarde, espero muito que as coisas melhorem daqui em diante.