Ela, a morte
mais uma vez
Parece mentira, mas outra amiga minha morreu. Ou não parece mentira, estou na metade dos quarenta e sortudos são os mais longevos. Antes quarenta me dizia: “meio da vida”.
Essa morte me abalou mais ainda porque era uma amiga com quem cresci e fui muito próxima. Era uma figura sui generis cuja iconoclastia nos fazia rir, autêntica que só ela. Morreu.
E meu cérebro não para de passear em sua conta do Instagram, em sua última postagem. Estudo a conta para ver se havia indícios de que a morte lhe tomaria a vida tão cedo. Alguns, quase nada. Ela tinha a pressão alta. Mas era nova, cheia de tatuagens e flamenguista. Escrevia bem pra caramba sem saber disso. Não queria ser escritora. Foi mãe de um menino autista, uma supermãe. Choro porque agora ele está sem ela. Choro porque a vida é um tapa bem espalmado na cara e diário.
A morte em o Sétimo Selo
Parece que existem dois polos: um negativo, outro positivo. O negativo sempre me atrai mais. Fico em luto e quase que viro eu mesma a defunta. A arrumação da casa e dos meus projetos pode esperar. Fico em posição fetal na cama absorvendo a notícia de que minha amiga morreu e ela não combinava com a morte, mesmo sendo bastante dramática.
Esse Substack parece a seção funerária de um jornal, mas a morte me fascina. Então, vocês, leitores, não esperem por agora textos solares. Quem me espanta é ela. Ela que atravessa o presente e muda de sentido as peças do jogo. Arrasa com vidas, deixa absorta outras tantas — estou mergulhada nesse esquife com cheiro de crisântemo.
Lembro de uma piada, acho que com o Rubem Braga, ou o Paulo Mendes Campos, querendo conversar sobre futebol e a Clarice, que estava presente na roda, só queria falar da morte.
A gente precisa fingir que nada está acontecendo ou vai acontecer para sobreviver a essa única certeza. E esse fingimento não funciona muito comigo. Eu fico impressionada, eu paraliso o que estou fazendo por dias. Mas como? Como se fosse um absurdo, uma desfeita da vida. Ela estava publicando stories com a cachorra anteontem? Não aceito. E nesse não aceitar me enrijeço. Preciso de mil martelinhos para quebrar essa estátua perplexa que me toma e me constrói.
Esses martelinhos são os sorrisos dentuços das minhas filhas, amigos, música, casa arrumada, uma mensagem boa, uma massa bem-feita, mariscos, um gole de café.
Por fim, recorro ao banho e a literatura que sempre, e isso é de lei, me fazem me sentir plenamente viva, inspirando oxigênio, expirando gás carbônico. Até o meu próprio fim.




Tanto fascina a mim que tenho no meu nome. Meus filhos não gostam do sobrenome pesado. Ensinei pra eles que dentro de Lamorte está escondidinha a palavra amor. Pintava de vermelho para eles verem. A morte também traz amor imbutido. Mas é cada tapa na cara de arder… meus sentimentos.
Por falar na Clarice Lispector, houve época em que ela fez entrevistas notáveis com gente da literatura e outras artes. Década de 60 do século passado. Uma das mais interessantes envolve o Nelson Rodrigues, que disse, quando indagado sobre a morte: “A única coisa que me mantém de pé é a certeza da alma imortal. Eu me recuso a reduzir o ser humano à melancolia do cachorro atropelado”.