Edredom
Meu farrapo cinza
Venho adiando isso há anos. O estofo virou grumos duros. Manchas de toda sorte: sangue menstrual, coriza, suor, ácaros, xixi de criança, restos de comida, esperma e lágrimas. Já serviu até de mortalha do meu saudoso gato Wilson. Seu tecido é de algodão puro — tão macio como a mão de uma mãe.
Mas seus rasgos, fiapos de costura e o cheiro excessivo de vida impregnada soltam gritos de exaustão. Eu tenho que me acertar com o tempo. Meu querido edredom cinza precisa se aposentar.
Usei meu pedaço de pano como objeto de apoio emocional por muito tempo. Lembro do Lino (personagem do Charlie Brown) que carregava para lá e para cá seu lençol azul. Sou como o Lino há mais de trinta anos.
É meio mórbido, eu sei. Mas eu tenho um apego a esse edredom misterioso — é quase como o amor. Usei esse pedaço de pano deteriorado em meu livro “Os tais caquinhos” para simular um casulo, uma crisálida. Nele, Abigail, adolescente, se transformava em uma jovem adulta —ainda hoje às vezes me enfio no meu combalido edredom para me organizar.
Nele, minhas filhas bebês se embrenharam do zero aos seis anos. Brincávamos de fazer temaki. Púnhamos uma na ponta e íamos enrolando uma de nossas filhas dentro dele até chegarmos à outra ponta. Elas morriam de rir. E nós também.
Um objeto que provoca risos é muito precioso. Um objeto que te encapsula do mundo hostil não tem valor que o compre. E minha relação com ele era quase filial. Usava meu querido edredom como travesseiro e como interlocutor também, tal qual Tom Hanks, em “O náufrago”, usava a bola de vôlei Wilson.
Mas o Wilson foi levado pelas ondas do mar durante uma tempestade forte. Meu Wilson morreu de insuficiência renal. O meu edredom cinza não teve essa intervenção natural: as coisas se perdem, se desconectam e se reconectam a cada milésimo de segundo.
É necessária uma intervenção minha. É preciso eu tomar coragem. Ser forte. Aí, então, posso repará-lo numa costureira, talvez. Não posso enterrá-lo neste estado lastimável. É necessário trocar os grumos duros por um enchimento novo. Lavá-lo com sabão e amaciante e depois guardá-lo num esquife feito de caixa de cristal enquanto invento uma reza agradecendo a sua existência basilar na minha vida.
A vida segue violentamente, o tempo corre como um gato assustado, as flores brotam do dia para a noite. Não vou levar nada daqui.



cumpriu muito além de suas funções, me parece. merece mesmo toda pompa e circunstância na despedida.
Oi, Natércia.
Quando recebi sua "niusléter", confesso que achei que se tratasse de um conto, introdução de um romance, enfim, uma obra ficcional. À medida em que aprofundei a leitura, fui compreendendo que era um depoimento de sua vida pessoal.
A princípio, pareceu-me descabido, inapropriado, por se tratar de autoexposição de sua intimidade. Mas também compreendi, em seguida, que sua vida, a intimidade de seu relacionamento com seu companheiro já havia sido devassada, de sorte que era sua defesa de questões já tornadas públicas.
De mais a mais, embora você mesma tenha-se colocado no lugar de "ré", no que tange a expor-se ou não você é de fato a juíza de si mesma, de seus próprios atos, do que lhe interessa ou convém.
Espero que tudo se resolva da melhor maneira possível, que os tais caquinhos sejam de algum modo rejuntados. Não me coloco como juiz e, como você, também, sempre e em qualquer circunstância, contento-me com a condição de réu.
Por falar nisso, convido-a e a seus leitores a conhecerem meu espaço no Substack, minha "Casa Literária", e deixaram lá seu veredito. Esta é minha mais recente "niusléter", de hoje, 27 de janeiro:
https://luisalbiero.substack.com/p/naldinho-alemao-my-president-odc6?r=2j6sk5