Doente
Vírus, pampas e livros
Estou doente, queria ter lido o livro da Sontag sobre doença, mas não li. Soube que ela queria muito viver e não aceitava sua morte mesmo quando sua doença extremamente avançada já anunciava seu fim irremediável. Seu filho teve que mentir para mãe. “Sim, mãe”, ele dizia, “você vai poder voltar para Nova York e retomar a escrita do seu livro”. Ela morreu dias depois com a cabeça fervendo de ideias. Isso me aniquila: alguém que quer tanto viver, mas não pode.
Fervo de febre e minha cabeça está oca. Acabei um romance (finalmente consegui encarar o arquivo com o distanciamento necessário para que você não trate mais a história como muito sua. Esse é um conselho batido que dou de uma escritora que não sabe dar conselhos: ponha para marinar o texto.).
Coincidiu com o fim do romance uma gripe chata que me tira o olfato e a disposição. Espirros vêm, mal- estar reina. Quase nunca fico doente, sou um tipo de ciborgue porque me alimento mal e fumo. Não faço exercícios, quase nunca almoço. Já falei aqui que acho três refeições muita coisa? E quase nunca fico doente. Devo ter ficado gripada umas sete vezes na vida. Então, daí você pode concluir o quão sofrível para mim é ter me abatido neste resfriado.
Acabei de tossir catarro, o que me fez dar uma pausa na escrita desse post (não consigo me acostumar a chamar de newsletter). Fiz um café bem forte para dar um susto no corpo. Meu corpo ficou assustado até quatro da manhã de hoje, a cabeça e a febre fervilhando, uma Sontag infinitesimal, sem cuidados paliativos.
Já estou pensando no meu próximo romance, cheia de notas, penso no desenho que ele vai ter. Uma longa estrada reta como a que tomei quando fui de Porto Alegre para o Uruguai. Eu juro: não havia uma curva, uma árvore, mas muitas ovelhas. Os pampas como minha cama sem cobertas porque o calor da madrugada castiga. Sou uma ovelha.
Acho que fiquei doente porque um senhor tossiu na minha cara ou porque terminei um livro. Ou as duas coisas. A causa do senhor não precisa de muita explicação: perdigotos contaminados. A do livro é mais assombrosa ou banal: eu troquei de pele como uma cobra. E essa pele nova é muito sensível e me adoeceu com a aridez dos tempos.
Vou deitar e ler cartas antigas trocadas entre duas escritoras Virginia Woolf e Victoria Ocampo. É bobo, mas é muito bom saber nas entrelinhas dessas correspondências semiformais que elas tinhas corpos e problemas comezinhos como os meus. Que comentavam sobre orquídeas, jantares, preguiça e gripes furtivas. Não, nunca vou ser uma grande escritora. Mas vou morrer escrevendo, como a imensa Susan Sontag o fez.
Arte: “Papelada”, Julia Debasse.
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