Devias vir
fracasso ficcional
Ando escrevendo muito, ando escrevendo coisas superficiais, ando escrevendo nada. Ando escrevendo na minha cabeça, ando tomando notas para futuros livros, ando de saco cheio de livros, ando lendo pouco, ando postergando leituras que desejo, ando, ai, ando teclando, teclando, meio como um tecladista numa churrascaria rançosa.
Minha cabeça está vazia, vazia, e faz tempo que não sinto isso, o salão da churrascaria rançosa, vazio, nenhum cliente. Nenhuma ideiazinha. Até escrevi um livro infantil escatologicozinho que foi recusado. Isso me deu um desanimozinho porque, oh!, a escritora aqui só tinha sido recusada uma vez, depois o livro foi para uma editora muito melhor e, sim, estou falando de Copabana dreams.
Escritor é tão vaidoso, mas há alguns piores, os que se acham injustiçados e merecedores de aplausos e assovios: “Você é foda!”. O escritor envaidecido abaixa as pálpebras lentamente e recebe com êxtase mais um elogio para sua coleção.
Tento não ser assim, mas, queridos, minha lua em Leão não ajuda. Pelo menos sou aquariana e, geralmente, o fracasso não me afeta tanto. Tenho consciência, por exemplo, de que no Brasil quase ninguém lê e quando lê é a Bíblia. Tenho consciência que número de vendas e prêmios são coisas tão randômicas quantos as cores das bolinhas de uma piscina de bolinhas.
Mas sigo aqui, tec, tec, seguindo, escrevendo, escrevendo, na minha churrascaria rançosa cujo nome quero batizar, em letras néon, de: Devias vir.
Imagem: Yuki Kimura.
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E eu que nunca li a Bíblia?
consegui até visualizar a cena: o pobre garçom passando pela milésima vez com uma peça de cupim recusada em todas as poucas mesas ocupadas, se esforçando para descolar os sapatos do chão pegajoso de gordura...