Desaparecimento
por que sumi
Um dia percebi que estava me faltando o mindinho do pé, depois desapareceram os outros dedos, depois o pé inteiro. Arranjei uma bengala. Mesmo quando a perna inteira desapareceu, ela me foi útil. Mas quando os braços e a outra perna sumiram ela não mais me servia.
Eu estava desaparecendo. Constatei. Deitada numa cama, o edredom cobria minha falta de corpo, só restou a cabeça. Mesmo sem corpo, sofri com um frio aterrador que deixava minha cabeça vendo pirilampos.
O que estava acontecendo comigo? Minhas filhas me aqueciam e me davam sentido com beijinhos nas minhas bochechas gélidas. Mas eu sumi. Arrumei uns frilas e agora sou colunista da Revista Cult. Quem quiser ler meu texto de estreia clique aqui.
"Learning hypnosis” de Michael McGrath
O aquecedor pifou e escrevi meus frilas de maneira telepática. Não me saía da cabeça os moradores de rua, mesmo que precisasse me concentrar em outros assuntos. Comecei a rezar por eles e por seus filhos e por seus animais.
O prognóstico climático não é bom, vai ficar mais frio. Eu preciso ter meu corpo e meus movimentos de volta. Não tá dando para viver assim, a cabeça e um cachecol ajustando o crânio. E os moradores de rua, meu Deus, e os moradores de rua, meu Deus, em quem não acredito.
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Li sua coluna de estreia na revista Cult. Muito legal! Quanto aos moradores de rua, tenho com eles longa convivência desde quando morei no Rio. Fazíamos uma atividade de acolhimento no centro da cidade, o "Café com Leite". Aprendi muito com eles nas madrugadas. Rua é quase sempre refúgio existencial (ter lido João do Rio ajudou imensamente!). Eles são pequenos heróis por preferirem viver a esmo do que buscar na violência uma solução para suas vidas - matando ou praticando o autoextermínio. Isso não é pouco! :)
Li tua colina na Cult. Então, vc só nasceu em Fortaleza, mas nunca viveu na cidade? Realmente Pandemia e o cavernícola formaram um combo dos infernos, dos mais inimagináveis. Um dia eu disse a um cara que eu gostava das fortes chuvas porque me lembravam a Nova Zelândia e ele me disse que não gostava porque pensava nas pessoas dormindo nas ruas e eu me senti a mais insensível das pessoas.