Conversa
Um abismo de vinte anos
Personagem 1: Carolina. Uma mulher de 45 anos, cabelos castanhos, tez pálida, estatura mediana. Um vestido todo preto de mangas longas. Botas de solado tratorado.
Personagem 2: Lucas. Um jovem adulto de 25 anos, tatuagem no pescoço do planeta Saturno. Cabelo aloirado, olhos castanhos, alto. Sapatos corretos. Magro e bem vestido.
Carolina senta numa cadeirada almofadada, de rodinhas, a luz que atravessa a cortina creme torna a iluminação do ambiente difusa no entardecer dos tempos. Ela flexiona a perna num V, depositando sua bota no joelho esquerdo.
Lucas senta de pernas cruzadas numa cadeira semelhante, mas sem rodinhas. Seu olhar é plácido e um tanto altaneiro, como de um juiz.
Uma voz que surge de várias caixas de som acopladas nos quatro cantos da sala propõe: “Vamos discutir o caso da Lambisgoia Carolina”.
Carolina olha pra cima pergunta se pode fumar. Recebe da caixa de som um seco e elétrico “não”.
Lucas, dá um meio-sorriso e diz: “Ufa, tenho rinite”, e funga forçosamente.
Carolina diz: “Bom, eu acho que a Lambisgoia é uma pessoa.”
Lucas complementa, sem cruzar as pernas. “Uma pessoa criminosa.”
Carolina pergunta a Lucas se o trânsito está em julgado. Dá uma volta na cadeira de rodinhas.
Lucas balança a cabeça em negativa e diz: “Nem precisa, né. Tá na cara que ela é racista, homofóbica e classista”.
Carolina inclina seu corpo para a frente: “Baseado em que você afirma isso?”
Lucas responde no automático como um robô: “Você não leu os posts dela de dez anos atrás, ou mesmo os de ontem?”.
Carolina responde com desdém: “Li. Não concordo com muita coisa. Mas ainda ela é uma pessoa.”
Lucas repete: “Uma pessoa criminosa. Você não viu a reação da internet, todo mundo caiu em cima dela. Uma rajada de shade tão grande que ela não aguentou e fechou os comentários.”
Carolina diz: “Eu não sou homofóbica, classista, muito menos racista. Mas na minha época as conversas se davam por cartas, um telefone fixo — a gente costumava enrodilhar os fio de borracha com o dedo…”
Lucas, perplexo, pergunta: “E daí?”
Carolina explica: “Sei lá, invadir a conversa privada de alguém era mais difícil. Acho que conversas privadas são legítimas”.
Lucas, bufa: “Mesmo se forem públicas criminosas?”
Carolina, esbugalha os olhos: “Depende. O que você considera criminoso?”.
Lucas chacoalha a cabeça como se ouvisse um absurdo. Resolve não responder e revira os olhos.
Carolina volta a cruzar as pernas, dessa vez como Lucas: “Veja, temos um abismo de vinte anos na nossa frente. Eu fui da última geração que experimentou o mundo analógico e a primeira a compreender o mundo digital. Eu também mudei muito, minhas visões de mundo, meu letramento, minha perspectiva na condição de mulher nordestina nesse país. Eu tô na mesma luta que você mas com outras armas. Algumas delas, por exemplo: a percepção da complexidade, um distanciamento saudável e até psicanalítico do caso, um espaço para questionar ações violentas, sem espectro nenhum, coercitivas e fascistas. Armas das quais discordo veementemente de você.
Lucas, boceja: E daí. Você me chama de fascista, eu prefiro terminar a conversa por aqui.
Carolina continua: E daí que temos óculos muito diferentes. Sim. Fascista e misógino. Você seria, imagino, capaz de escrever uma carta para a Lambisgoia, ensinando palavra por palavra o que ela deveria dizer para a turma do Estraçalhando o Tabu. Que curiosamente tem esse nome. Não estraçalha Tabu nenhum. Só estraçalha a esquerda e acende a violência, que também é humana, mas cegamente justiceira que a tua geração inventou importada dos EUA.
Lucas: Não, eu não seria. Não sou misógino.
Carolina expira como se soprasse uma fumaça de um cigarro imaginário, dá mais uma volta na cadeira e ressurge com um sorriso no rosto: “Seria. No caso da Lambisgoia, eu tenho certeza. A Lambisgoia usou de ad hominem, ad personam, sei lá, para se defender de um ataque. Um ataque que se resume a um “períneo entre jornalismo de denúncia e depoimento pessoal”.
Lucas: Isso é inadmissível. É óbvio que ela foi a vítima da história.
Carolina: Você sentando nos seus vinte e cincos anos vem me dizer o que é inadmissível. Você até tem esse direito, mas, sejamos honestos, é engraçado.
Lucas fica mudo. Pensa. Talvez ele esteja cometendo algum crime, sendo misógino, etarista. Isso lhe dá calafrios.
Carolina prossegue, mudando a mecha castanha de seu cabelo de lado: Eu não sou da tua turma. Não concordo com o modus operandi que vocês acham ajudar na conquista os direitos das minorias. Acho fascista. Eu também luto pelas minorias, mas sem um chicote e um microscópio na mão. Sabe o que tenho na mão, Lucas?
Lucas, só diz “não”, visivelmente enfadado e com os pés já virados para a porta.
Eu tenho linhas incompreensíveis, que se entrecruzam e dão volteios e formam triângulos, quadrados tortos, ondas, semicírculos e prováveis corações. Você sabia que os chimpanzés tristes de zoológicos também as têm?
Lucas se levanta e alteia seu tom de voz com uma expressão perplexa: “Chimpanzés?!” Lucas levanta os braços e fala com as caixas de som: “Por favor, abram a porta para mim. Não consigo.”
A porta pantográfica abre e Lucas vai embora depois de se despedir de Carolina com um piscar de olhos enigmático.
Carolina finalmente relaxa e estica as pernas: “Ah! Enfim vou poder fumar”.
Imagem: cartão-postal que comprei no Uruguai.
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