Cascalhos e pepinos
Meu psicanalista exato
Finalmente ele voltou de férias. Fazia quase um mês que não tinha meu divã on-line. Nesse meio tempo cheguei a chamar o SAMU. Juro.
Conheci P. há 12 anos e desde então ele me analisa. Eu também o analiso — é difícil, mas às vezes ele deixa um truque escapar. Raramente adivinho os coelhos que ele tira da cartola ou quando o incomodo, o braço subitamente inquieto, e, por segundos, consigo tirar a máscara de Maria Homem dele.
Todo psicanalista tem uma cara irritantemente plácida de Maria Homem? Não sei. Mas sei que isso faz parte do treinamento deles. Porque os psicanalistas, esses seres quase extraterrestres, são condutores de vidro, ou devem ser.
P. não é tão Maria Homem assim. Ufa. Eu vejo quando ele se alegra com alguma alegria minha. Vejo quando ele se angustia com alguma angústia minha. Inclusive, a primeira angústia na minha história com P. foi justamente ele próprio.
Há 12 anos eu estava em estado de depressão plúmbea. Ele, tetraplégico. Eu sem tomar banho há semanas. Ele tetraplégico para sempre. Eu sem gana pela vida. Ele tetraplégico para sempre e banhando e bem vestido e trabalho em seu consultório. Aquilo me esmagava, me torturava, me triturava.
Tive que dizer, acho que na quarta sessão: “Não consigo não me sentir um pedaço de cocô com você aí numa cadeira de rodas e eu, com braços e pernas funcionais, chorando sem saber o motivo. É injusto. Não dá”. Ele ficou em silêncio, dentro de sua camisa elegante de algodão, olhou para mim com seus olhos claros e intrigantes e disse como se tirasse um lenço do bolso: “É que algumas pessoas têm cadeiras de rodas invisíveis”. Angústia resolvida num passe de mágica. Palavras são coelhos mesmo.
Sonhei com um montinho de cascalhos e pepinos fatiados. Que alegria senti quando acordei sabendo que hoje, finalmente, eu tinha uma sessão de psicanálise com P. Quando o Zoom conectou, ele viu o tamanho do meu sorriso. Ele viu mesmo. Ele pode não andar ou mexer os braços coordenadamente. Mas ele consegue ver tanto o tamanho exato do meu sorriso, quanto o tamanho exato da minha dor. Obrigada por ver minha cadeira de rodas, P.
Arte: Renata Laguardia, “Paisagem substância”, 2022



Fiquei tão feliz de saber que você escreveu essa história ❤️eu a levo comigo
Uau, que texto! Amo a Renata,mas a arte não apareceu para mim