Cantar
"Parece com não morrer"
Começo meu texto citando no subtítulo um verso da música “Enquanto engomo a calça” do Ednardo, cantor conterrâneo. Lembro de criança, cantar no elevador, e de uma pessoa comentar, “Nossa, mas como você canta mal!”. Fiquei muda. Minha tia saiu logo em defesa: “Canta mal? Natércinha canta muito bem”. E, sim, eu cantava mal e ainda canto muito mal.
Tenho ceceio e hipotonia na língua, culpa minha que nunca quis corrigir minha dentição e frequentar as sessões maçantes de fonoaudiologia. A minha voz não tem lá seu timbre bonito, além do belo sotaque cearense, que puxa para o anasalado, sou fanha. Minha voz é dissonante e disforme, às vezes grossa, às vezes fina. Tenor, soprano e contralto espatifados no chão da cozinha.
Mas não era só na cozinha e no elevador que eu cantava, cantava sobretudo no chuveiro inventando um inglês sui generis ou composições de minha autoria, a maioria delas chupinhadas da Xuxa, Balão Mágico, Trem da Alegria etc. (Ou do Michael Sullivan e Paulo Massadas, que compuseram a maioria dessas canções. Gênios.)
Minha filha Madalena tem a mesma mania, ela se organiza cantando, alguma coisa acontece ao seu redor, a gata quebra um jarro de flor, por exemplo, e ela já muda a expressão para uma face mais solene e ergue os braços como uma Branca de Neve latino-americana cantarolando algo como: “A gata quebrou o vaso de flor, mas a flor não morreu e é isso que importa… tralálá…”. E vai derivando os acontecimentos da vida sem rima nenhuma, porque na vida não existe mesmo rima.
Outro dia disse que não sou escritora: sou roqueira. Mas além de não saber cantar, não tenho nenhum senso musical e não toco nem “Asa branca” em uma pobre flauta infantil de poliuretano. Meu Word em branco é meu palco e meus leitores são minha plateia. (Tenho o hábito até hoje de gravar meus textos para entender e moldar a sonoridade deles.)
Tinha também o hábito de ficar deitada ouvindo vinis de músicas variadas: nacional, internacional, heavy metal, clássica. Ouvia direitinho: Lado A, Lado B, acompanhando a letra das músicas que vinham no encarte e aproveitando a temperatura mais amena do chão gelado. Quero recuperar esse hábito o mais rápido possível.
Mas o que faço é música. Li em algum lugar que a Fernanda Torres aconselhou alguém a cantar todo dia. E se tem alguém que dá bons conselhos nesse país dissonante é a Fernanda Torres, taí uma rara unanimidade.
Desde que tive filhas gêmeas, há quase sete anos, canto todos os dias. É realmente impressionante como as minhas ranhuras nada melódicas acalantam minhas filhas e me acalantam por tabela. Elas dormem através do tubo das minhas cordas vocais e chegam às nuvens. Já eu, me sinto menos pesada e mais organizada, quase em paz.
Voltei a cantar depois de muitos anos muda. Canto como escrevo, escrevo como canto. Lembro de uma cena bonita, com um ex-namorado, dentro de um ônibus aqui em São Paulo, quando cantei uma canção de ninar da minha infância. Ele era músico. E um músico muito criterioso. E eu desafinando loucamente no Pirituba / Lapa para o desgosto dos outros passageiros. Terminei de cantar e ele, emocionado, ficou em silêncio por uns segundos e por fim me disse: “Que coisa mais bonita”.
Vou continuar cantando e escrevendo, não importa o que os outros achem. Não vou parar de cantar, de escrever e, sobretudo, de desafinar. Na minha opinião desafinar é a parte mais bonita de cantar. E, não, João Gilberto, não me causa imensa dor. Mas no meu peito de desafinada também bate um coração combalido.
*Capa do catálogo de uma exposição do Hélio Oiticica.
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