Bocas que beijei
Um apanhado de ósculos patéticos
Beijo 1. Eu tinha comido uma cabeça de alho porque estava sentindo o corpo mole. Não queria perder a festa, estava em outro país e faltava pouco para o meu retorno. ele tinha um sobrenome italiano. Senti que sentiu o gosto, insistiu um pouco e depois se embrenhou na pista.
Beijo 2. Ele era baixista de uma banda de Doom Metal. Bonitinho, atarracado. O pior mau-hálito que já senti na vida. Ofereci bala de menta recusada com certa fleuma. Insisti. “Não precisa.”No fim das contas, beijei fezes.
Beijo 3. Corredor de uma boate em Fortaleza. Um amigo alto me faz um pedido: “Beija ela de língua”. Ela era ruiva e muito branca. Encostei a vermelha na parede e beijei a menina como me havia sido requisitado. Tudo muito macio. Era macio e ao mesmo tempo me lembrava isopor. Depois do beijo, cada uma foi para um lado.
Beijo 4. Quadra do prédio. Ele estava encostado na parece de lajotas creme. O beijo foi se demorando, as línguas procurando um ritmo. As línguas não encontrando um ritmo. Senti seu coração acelerar. Ele afastou o rosto, pediu licença e arrotou. Depois continuou a me beijar naturalmente e ainda fora do ritmo.
Beijo 5. Estava escuro e eu não lembro bem onde estava, porque meu estado de embriaguez era alto. Ele tinha uma língua muito dura, como se fosse musculosa. Quando fomos para a luz eu vi os vãos de cáries pretas e verde-musgo de alguém que provavelmente nunca visitou o dentista.
Beijo 6. Rio de Janeiro. Esse não foi ridículo, mas inesperado. Estávamos numa mesa rodeada de amigos, ele a minha frente, me pediu do nada um beijo. Eu o beijei e deixei a garrafa de azeite se derramar sobre a toalha branca junto aos palitinhos de limpar os dentes que ficaram todos azeitados.
Arte: “O beijo adolescente”, de Rafael Coutinho.



um inventário nada invejável...
Beijo cinco. Meu Deus! Algo meio Conde Orlok...