Aquilo
A descoberta do óbvio absurdo
Lembro como se fosse hoje: a textura de cimento da escadaria estreita que levava ao laboratório de química. Depois da aula, onde manuseamos os vidros frágeis de dosadores e assustadores Bicos de Bunsen, sentamos eu e N. para conversar.
Mal cabíamos no degrau estreito, mas tínhamos onze anos e nosso quadris ainda não haviam alargado o suficiente para guardar um filho. Eu falei displicentemente à N: “Você sabe o que é boquete?”, ela franziu o cenho. Como se eu tivesse perguntado, “você sabe o que é uma bétula”?
Eu disse que tinha visto na casa do meu vizinho umas revistas que mostravam o que era boquete. Ela continuou com uma expressão de lata de sardinha como se eu estivesse falando em mandarim. Foi aí que percebi que algo mais sério estava acontecendo ali. Ela não sabia o que era sexo. Onze anos!
Salivei para contar tudo. Detalhe por detalhe, sua expressão de lata de sardinha foi se transmutando para “O grito” do Munch. Não poupei nenhum detalhe, o “esperma”, lembro, “parece requeijão, só que mais líquido”. As mulheres gemem e gritam. E não porque dói. Mas porque parece que é bom. Os homens enfiam o peru em todos os lugares, boca, vagina, ânus, orelha, nariz”, dei uma exagerada. Estava tendo um prazer quase sexual de ser A PESSOA que revelava a N. a o óbvio absurdo que era o sexo.
Sua reação foi imprevisível, ela começou a chorar. Chorar levinho, uma lágrima grossa, caindo só depois que a outra alcançava o queixo. Seu olhar ficou indecifrável, como se estudasse uma montanha. Abracei minha amiga. Não por compaixão, mas para segurá-la do abismo que se abriu naquela escadaria.
Ela passou umas semanas me evitando. Eu entendi e respeitei o afastamento. Hoje ela é psicóloga ou psicanalista, das boas. Folgo em saber que talvez eu tenha dado uma contribuição ao seu belo destino.
Arte: “O arranjo”, de Pedro Moreira Graça. (@pedromgraca_ no Instagram)
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