América
um conto
O grito golpeia o ar, se atira contra as paredes. O baque é meio desengonçado, tubulações carregadas do intestino, um saco de pedras rolando ladeira abaixo. Depois o barulho cessa. Quando ela percebe, já está apertando as crianças. Ela, América, com suas veias fofas e encavaladas logo abaixo dos joelhos, e os netos, que são filhos não havia mais ninguém para criá-los. Deu o peito ao pequeno. Ele sugou o mamilo da avó e tirou proveito do líquido arenoso. Sobreviveu. América aperta as crianças e aproveita para roubar o jato de ar que sai de suas bocas, e assim recupera a disposição. Tem uma história antiga: a amiga de infância dizia que o traço escuro da barriga das grávidas indica o caminho que o bebê precisa fazer. Os traços de América não dividem o ventre ao meio, eles confundem os sentidos porque são muitos. Partem das pontas dos ombros, crispam o canto dos olhos, dão um nó logo abaixo dos seios, descem os flancos e vão dar nas veias das pernas magras. América está sempre um pouco tonta e aérea. Não come direito e dorme mal, por isso caiu da escada com o mais novo no colo. O grito veio da queda. De manhã, o mais velho derrubara de propósito uma tigela de arroz cozido. Pisou nos grãos oleosos sobre o rejunte do chão da cozinha. As unhas imundas, os dedos peludos, os grãos de arroz esmagados entre as gretas dos pés. Deslizou como uma paspalha. Depois caiu da escada mais uma vez e outra e outra vez também. Os roxos da sua pele se espalham como pequenos lagos escuros, compõem seu couro de gato de rua. O pequeno pede colo, ela então se agacha estalando os joelhos, levanta a criança do chão, inventa uma força que não tem. Sonhou outro dia que o mais velho se afogava no mar da noite. América mergulhou na água agitada, tentou, mas não conseguiu alcançá-lo, a cabeça do menino indo a pique, as bolhas subindo rarefeitas indicando a falência dos pulmões. Coração encharcado, um filho naufragado, calado, no fundo do mar. Também tem a história do Bateau Mouche que não lhe sai da cabeça. A atriz Yara Amaral, de longo branco e sandálias douradas, flutuando sem vida. A atriz Yara Amaral era avó? A prisão de ventre afeta seus nervos e o pequeno aproveita o colo para lamber sua bochecha. A saliva deixa um cheiro azedo no rosto de América, ela acata o gesto, mas desvia da próxima lambida. Outro dia viu um mendigo na rua entornando uma garrafa de óleo de soja. Não estava cheia, era um resto, três dedos. Ele bebeu tudo, depois lançou a garrafa na sarjeta e enxugou a boca com as costas da mão. Quando América percebe, já está apertando as crianças. Aperta tão forte, que os braços se esticam e ela mesma recebe o abraço tenso. Mais tarde, no escuro do quarto, canta para os filhos a música do galinho que se perdeu. O poste da rua ilumina um pedaço do seu rosto, a luz escapando da cortina. Tapa os olhos com o lençol. Cai no sono junto com os meninos. Todos dormem na mesma cama, amontoados, alguns braços e pernas fora do colchão. Às vezes sonha com vitórias-régias cobrindo seu rosto, grudadas como máscaras gelatinosas. Sufoca. Parece uma múmia; o esgar engelhado congelado no tempo. Então emerge das águas escuras, aperta as crianças, rouba-lhes o ar. Tenta recuperar o fôlego, amanhã é dia de cair e gritar outra vez.
A atriz Yara Amaral
Conto publicado pela revista Época, a convite de mateus baldi, circa 09/2020.



