Ambição
palavra feia para uma cearense
Acabei de postar nas minhas redes a seguinte frase: “Enquanto escritora, se vier prêmio, muitas vendas, tradução, é lucro. O que mais me importa é conseguir esgarçar e ser fidedigna o suficiente ao que quero e preciso escrever”.
Esse pensamento me veio a partir da carta de suicídio do Kurt Cobain em que ele descreve a Courtney como uma “deusa cheia de ambição”. Ele, apesar de ter lutado a vida inteira para ser reconhecido, foi reconhecido, e por muito motivos se emburacou numa anedonia devastadora da sua arte e, enfim, sabemos como tudo terminou.
Fiquei pensando o quanto lá no Ceará dizer que uma pessoa é ambiciosa é algo pejorativo. Mas nos EUA e aqui em São Paulo não é. Não sei se foi coisa da minha criação peculiar, ou por uma ausência legítima desse sentimento, posso garantir que, sem autoindulgência, não sou uma pessoa ambiciosa.
Sinto até um leve constrangimento quando percebo esse traço em alguém. Acho feio, acho meio asqueroso. O meu plano não inclui o sucesso a qualquer custo, mas também não exclui escrever até morrer — espero não perder essa gana antiga nunca.
A ambição para mim é diferente de fazer acontecer, ela inclui jogos de poder, relações de interesses e insidiosas, comportamento forjado, máscaras das mais horrorosas.
Tenho uma lista imensa de defeitos: sou rancorosa, por exemplo, não esqueço de certo detalhes que me fazem desintegrar certas pessoas da minha vida. Mas ambiciosa? Nunca.
Não consigo, tenho pudor e vergonha na cara. Ou, melhor dizendo, sou cearense das antigas. Meio encurvada e fanha para me colocar na esteira macabra dos ambiciosos de espírito e prática. Ufa.
Arte: “Soy”, de Charles Lessa, artista conterrâneo.
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A ambição é boa serva, porém má senhora.
também sempre me deu repulsa