Almoço
carnaval numa mesa oval
Resmungo no táxi sobre o calor, o concreto, o glitter, a falta de banheiro, a aproximação excessiva das pessoas. Até da alegria reclamo. Enquanto ralho como uma senhora de coração ressecado, alterno uma discussão com o André sobre a história da propaganda no Brasil. Eu falo da involução da propaganda de 100 anos para cá e explico os motivos: a propaganda mudou, deixou de ser naive. Era feita por artistas, tinha um senso divertido e estético. Ele contrapõe com a ideia de que não foi a propaganda que mudou, mas quem faz propaganda. E que também hoje o mercado da propaganda tem menos dinheiro. Eu fico consternada com essa constatação do meu marido.
Sou filha de publicitário e testemunhei dentro de casa essa transformação triste acontecer, meu pai que também era compositor, deixou de ser chamado para trabalho em agências de publicidade paulatinamente. As últimas foram propagandas políticas, quando o dinheiro aparecia aos montes lá em casa, para logo em seguida desvanescer.
Chegamos ao endereço, sigo reclamando do calor vestindo um macacão de algodão fino todo vazado. Falamos com o porteiro, no elevador apertamos o número 10, enquanto as nossas filhas, tensas com a quase-discussão no táxi, perguntam se haverá outras crianças no almoço.
É quando ELA, nossa anfitriã, abre a porta com um sorriso comprido e sincero, óculos de aros grossos que curiosamente não pesam no seu rosto de fada. Seu vestido é todo colorido e leve.
Lá dentro está tudo mais colorido, leve e fresco. Os nosso dentes dançam enquanto seguimos vivendo. Encontro conterrâneos queridos e conheço pessoas doces. Queijo, azeitona, pão e vinho. Tudo se move, as gargalhadas salpicam enquanto P. cozinha um arroz de camarão com linguiça.
Sentamos à mesa, comemos, dizemos absurdos coerentes e rimos, rimos, até o licor de uísque que bebi severamente, e minhas filhas terem salpicado o sofá de hidrocor. "Não tem problema, já íamos trocar de capa mesmo.” O dia corre como uma serpentina. Dormente de álcool e comida observo São Paulo de outro ângulo, minha vida, meus amigos, a vida e meus amigos, ali em carne e osso.
"A convivência digital está me envenenando", penso. É tão bom ver, falar, tocar nos outros. É fundamental. Não tenho vergonha de dizer que meu flanco está assado de tanto ficar deitada. Ando cada vez mais ermitã, logo eu, uma pessoa de tantos amigos.
Abraços, bem-querer genuíno, alegria, nos despedimos. Minha filha vê uma barata na rua, viro os olhos para o lado oposto. Voltamos mais leves pra casa e, logo depois de cuidar das meninas, caio no sono. Sonho que tenho que decidir uma cidade para morar. Escolho Recife. Não precisa ter nenhuma noção de psicanálise para entender o recado: é preciso almoçar, jantar, tomar café com os outros. Somos feitos de bandos, como os macacos ou hienas. Já tenho uma fantasia de carnaval: gente.
Pintura de Jean-Michel Basquiat
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