Acidente
Um relógio imenso
Tombou na praça
Os pedrestes pararam
Para observar as horas
Caídas.
Na outra ponta do país
Uma mulher de vestido de algodão
(Sem sutiã)
Discute com dois motoristas
Enquanto um deles mastiga
Um palito de dentes
A mulher rosna
Eles riem como se dissessem
“Você é uma palhaça“
A mulher lembra do relógio caído
Na praça
(Nenhum ferido)
A mulher, sim, ferida
Por não conseguir
Fazer uma baliza
Em um espaço apertado
Seu coração pia
Seu corpo treme
Ela xinga os dois urubus, ubers,
Com a boca cheia
Se cair
Se levar um murro na cara
Pelo menos vai carregar consigo
A dignidade de um palavrão.
E não a mudez desnecessária de
Um relógio que passou décadas e décadas
De pé, calado.
Computando horas mortas
Que já não valem mais nada.




<3
❤️